
Nossa primeira contribuição: Daniel Torres.
ESCRITA DA PENUMBRA E DA SOMBRA
O que marca o conceito de estória heróica? Bom, não se pode negar que podemos perceber em todas uma noção de grandeza: os cenários trazem sempre a dimensão da imensidão, há uma grande dificuldade na tarefa a ser realizada, que por sua vez é dotada de intentos expressamente nobres, há um grande senso moral nos protagonistas, vemos o conflito contra aquilo considerado vil e desprezível.
Coração das Trevas de Joseph Conrad deve ser entendido como um, a seu modo. O narrador, Marlow, conta sua experiência na floresta equatorial africana. Trabalha para uma empresa colonial de transportes fluviais. Sua função: fazer a ligação entre as feitorias e entrepostos da grande missão civilizadora da Europa. Um trabalho digno, nobre como a luz da civilização européia.
A história vai mais a mais que esse heroísmo cotidiano, tanto quanto vai mais ao fundo da selva. Marlow é um dos que devem procurar o entreposto perdido de Kurtz. Um farol da Europa no coração selvagem da África, missionário na grande selva que parece sugere o infinito na sua escuridão – civilizando por o marfim. O Encontro de Marlow com Kurtz, diga-se de passagem, é um momento ímpar.
Tanto quanto o fim, o caminho é surpreendente. Conrad descreve suas paisagens e personagens com tal esmero, com tal habilidade na descrição dos objetos e das cores, que o leitor fica enervado – Seus textos são quase associações entre a literatura e a pintura. Conquanto o barco monta o rio estamos indo cada vez mais fundo para o coração da escuridão – do crepúsculo do início da estória até seu fim. A imensidão da paisagem que vemos (lemos?) é a da floresta monumental, mas opressiva, úmida, fatal, enlouquecedora. Sua descrição não traz só cores e sombras, nos faz ouvir o bater selvagem dos tambores, os nativos, com seus gritos e ululos. A nobreza da missão é a mais sincera possível, é a nobreza da civilização burguesa; a caridosa missão da civilização não se poupa do uso da barbárie – uma vila é dizimada por nada, por galinhas. Ensina-se a um nativo a operar uma caldeira dizendo-lhe que ela é um deus. Tudo que é tratado por humano – entenda-se aqui por europeu – é imoral, cínico ou hipócrita – todos são postos na penumbra. A luta contra o vil aqui é a luta contra o bárbaro, ou seja, a luta contra o impotente, contra o fraco – uma luta de resultados óbvios, mas que não se isenta de esmerar a si em horror.
A estória só caminha para as trevas porque quer chegar àqueles lugares onde age aquele anverso da alma que nosso frágil pudor não cansa de declarar, mas detesta encarar. Estamos aqui diante do mais poderoso relato sobre a amoralidade humana. Heart Of Darkness atinge o íntimo de nosso senso moral, brinca com os sentidos pela plasticidade, força e precisão de suas descrições. Um experiência moral, sensorial, intelectual – Real!
O Horror! O Horror!
Coração das Trevas (Ed. de Bolso)
Joseph Conrad
Companhia de Bolso (Cia. das Letras)
entrou na lista de leituras obrigatórias!
ResponderExcluiradorei o post!
beijos
Esse livro foi o que inspirou o Francis Ford Copolla a fazer o Apocalypse Now!.
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