
Mais uma contribuição de outro que, assim como nós, não tem mais o que fazer... novamente, Daniel Torres.
Em 1796 Goethe publicou Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, o que pode ser dado como o marco fundamental para o chamado romance de formação. Da criança ao homem, vemos todos os eventos capitais de uma vida, suas lições. Tende então esse gênero ao moralismo ou ao didatismo. Nada muito atrativo. Claro, existem exceções; e, dentre elas, Hermann Hesse.
Escreveu Sidarta com base nas experiências que teve de uma viagem à Índia, do contato que teve com os textos da filosofia indiana que adquiriu de seu avô indólogo. Em si, essa adição do cabedal à experiência não renderia uma novela indiana – o que não mereceria qualquer préstimo. Valem como um contexto para a densidade, poesia e beleza que Hesse dá a este texto surpreendente
A estória é homônima do protagonista, Sidarta, um filho de brâmane que decide chegar à iluminação, transcender às aparências do mundo – romper o véu de maia como dizem os hindus. De início, ele decide viver com os samanas, os homens santos da índia, buscando a iluminação na ortodoxia hindu. Não se satisfaz, procura um novo mestre. Ninguém menos que o outro Sidarta: Sidarta Gotama, o Buda. Sai de sua tutela, entende que ninguém pode chegar ao momento da iluminação do Buda.
Daí em diante os mestres são vários como as facetas da experiência humana: um comerciante, uma concubina, um barqueiro, um rio. De todos eles Sidarta busca aprender algo. Em todos há um aprendizado, uma nova perspectiva, como em todas as experiências da vida humana. Em cada perspectiva que aparece vemos uma nova linha do contorno da verdade sendo moldada. Cada momento em Sidarta é de uma energia quase vital.
Se a estória é poética em todos os momentos, é talvez por dar um pouco da beleza contraditória da existência. Se a cada momento ensina, é porque cada momento justifica todos os antecedentes. Ao fim, não podemos fazer nada senão sentir uma grande vibração no corpo que não é senão a vibração paradoxal de uma inquieta paz. Quando do fim da última linha, só podemos ver ante nós, leitores estupefatos e maravilhados, a imagem de um velho com um sorriso discreto e intenso. Este sorriso é o convite que Hesse, este homem que foi destinado a escrever sobre a viagem do indivíduo, nos faz a iluminação pessoal.
Sidarta
Hermann Hesse
Editora Record
Nenhum comentário:
Postar um comentário